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Gramática Moderna da Língua Portuguesa
Língua viva é a que renasce continuamente tal fênix linguística!
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                         Vende-se casas ou vendem-se casas? 

     Dias desses, folheando uma revista especializada em Literatura de Cordel (arte genuinamente nordestina de grande apelo popular, mas de difícil concepção), li um artigo que, se por um lado é irônico e burlesco, por outro, traz uma dúvida que povoa as mentes de muitos, estudantes ou profissionais que “trabalham” as palavras e as frases: por que “Vendem-se casas” se casas não podem se vender? Por que não chamar de sujeito indeterminado se não se conhece o autor da ação? Por que não chamar apenas de objeto direto, em vez de classificá-la como sujeito simples? 
     Todos os estudiosos da língua sabem que o objeto direto (que só existe na voz ativa) é paciente e que só há voz passiva se o verbo é transitivo não preposicionado. Em “Vendem casas”, o sujeito é indeterminado, pois se encontra flexionado na terceira pessoa do plural e não há núcleos que revelem o(s) agentes(s) responsáveis pela ação de vender. O verbo é transitivo direto (não preposicionado) e casas o objeto de sua(s) venda(s). O articulista aceita e reitera a tese de que verbo na terceira pessoa do singular, acompanhado da partícula de indeterminação do sujeito (se), mantém o sujeito indeterminado, porém se confunde e formata uma hipótese segundo a qual o fato de não se conhecer o agente em “Vendem-se casas”, esta oração estaria errada, pois o verbo deveria permanecer no singular, ou seja, “Vende-se casa”, com se indeterminador, jamais apassivador. 
     Sua tese baseia-se na premissa falsa de que não é possível que exista sujeito em casas: primeiro, se ela não se vende; segundo, se não há autoria da ação; terceiro, se o verbo está no plural. Vamos por partes. 
     De fato, "casas não se vendem", é preciso que alguém o faça, nem a ação de vender pode ser compreendida por recorrência. Ocorre que, se não existe um agente (da passiva) explícito, ele está exofórico (fora do texto), pode ser depreendido por um processo de inferência que o deixa subentendido, mas o torna óbvio: qualquer oração em que se apõe o pronome apassivador, o objeto direto da oração da voz ativa, como em “Vendem casas”, transforma-se em sujeito da voz passiva. Nesses casos, o agente fica implícito, mas óbvio, pois será sempre aquele que representa (por cognação) o próprio sentido expresso pelo verbo, impedindo, assim, que ocorra um vício de linguagem denominado pleonasmo vicioso: “(Os vendedores) vendem-se casas”. Ou seja, em “Bebem-se vinhos”, quem o faz? “Os bebedores”, certo? Ou ainda em “Viam-se lindas flores”, quem as via, provável ou certamente os “Observadores”? 
     Analisando-se o aspecto semântico da oração da voz passiva, pode-se perceber a clara intenção de valorizar a ação, e não o autor. Entendendo-se que objeto, nesta acepção, não significa coisa ou instrumento, mas objetivo, meta, finalidade, fica mais fácil entender o motivo pelo qual não há o agente. Processo inverso se verifica com a partícula de indeterminação quando se procura focalizar o agente, ainda que desconhecido. Em “Precisa-se de engenheiro”, se um leitor não exerce essa profissão, ainda que desempregado, não pode candidatar-se ao cargo, entretanto, se ele o é, procurará descobrir, não o objeto = objetivo (ele mesmo) mas o agente, o autor do anúncio, a fim de preencher a vaga disponível e mudar os rumos de sua vida. 
     Portanto, ao caro articulista, cabe a percepção de que a língua não premia o óbvio, deixa-o para que o leitor mais bem preparado infira, ao contrário, procura enaltecer o novo, pelo processo da recorrência, afinal, em “Estudam-se várias matérias” ou em “Várias matérias são estudadas”: quem as estuda? Estudantes. Óbvio ou novo?
Nelson Maia Schocair
Enviado por Nelson Maia Schocair em 25/02/2007
Alterado em 21/04/2009
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